segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Recordações

Buenas pessoas, tudo em paz?! 
Como vocês já viram resolvi relatar um pouco da minha história sobre rodas (especialmente me des-equilibrando sobre duas), pois desde que o homo sapiens a inventou são raros os casos em que alguém vem ao mundo sem ter se deslocado sobre algo que tenha rodinhas e quase certo que vai partir desta pra melhor da mesma forma...

Minha história fora da barriga da mãe começa na tarde de 11 de Agosto de 1980,
Cartaz feito pelo meu velho para anunciar minha chegada.
mas eu só tenho lembranças a partir de 1985, quando a família morava na cidade de Viamão (região metropolina de Porto Alegre-RS), me recordo especialmente de um triciclo de metal, vermelho, tipo aquele usado pelo boneco do filme “Jogos Mortais”, depois um buggy amarelo à pedal que era a alegria dos vizinhos, uma volta pra cada um, até o dia em que quebrou uma roda e não teve mais conserto,  e por fim uma daquelas imitações baratas de “velotrol” de algum super-herói, tudo de plástico que, obviamente, não durou muito tempo... Naquela época, para o deslocamento da família, meus pais tinham um Dodge Polara 1800, ano 1973, cinza, o qual eu achava que tinha nos levado com parte da mudança quando fomos morar na cidade de Camaquã, distante cerca de 100 km da capital gaúcha, mas conversando com ele na verdade fomos num Corcel I, vermelho, que pifou no meio do caminho.... Mas sei que logo o “Doginho” foi pra reforma e meu pai comprou uma bicicleta para nos deslocarmos, uma “Barra Circular”, lembro que ia na garupa enquanto ele empurrava a bicicleta, de mão dada com minha mãe, foi praticamente nesta época que descobri o meu (des)equilíbrio...

Primeira lembrança boa de 1986, já em Camaquã, uma moto CG, de cor marrom, em tom metálico, propriedade do irmão de criação do meu coroa, o finado tio Ozí, muitos passeios de moto sem capacete, em que a minha segurança era preservada na tentativa de abraçar por completo a pança do tio (meus bracinhos não venciam a circunferência abdominal daquele sujeito bonachão que dizia: “Segura firme!” e saía feliz da vida).

Finado tio Ozí, sua motoca (descobri a razão de eu gostar tanto desse tom de marrom) e eu banguela.

Mas vamos a minha primeira tentativa desequilibrada: uma Berlineta azul, aro 16, de alguma vizinha, numa leve lomba (descida, para quem não é gaúcho) na rua de casa, consegui manter o equilíbrio... mas não a trajetória... naquele pavor típico de piá, me fui à parede da segunda casa da rua... Apenas alguns esfolados, sobrevivi! Algumas semanas depois uma Caloi Cross, de um vizinho maior, banco numa altura maior do que minha estatura exigia, ponta dos pés para alcançar os pedais, meu velho me segurando e eu citando repetidas vezes a frase típica “Não me solta pai! Não me solta pai!”, mas quando percebi estava muitos metros longe dele, quase no fim do beco onde morávamos, consegui parar e descer sem cair, só não consegui subir de volta e voltei empurrando :-P

Depois disso foram muitos passeios de moto, sempre agarrado na pança do tio, pois fomos morar no centro da cidadezinha, e quando não estava na garupa da “Barra Circular” estava na garupa do tio. Neste outro endereço fiz amizade com dois vizinhos que moravam em frente, o Ítalo, que tinha uma Monaretinha marrom aro 16, e o Nader que tinha a famosa BMX, aro 20, ambas a minha disposição, e também foi nesta época que montamos, os três, um carrinho de lomba, mesmo sem ter nenhuma lomba por perto, nos revezávamos empurrando pelas calçadas :-D

Só fui ter minha primeira bicicleta em 1991, já morando novamente em Porto Alegre, uma Monareta verde, aro 20, fabricada em 1980, com freio contra-pedal, a qual era motivo de chacota para alguns daqueles que tinham suas “Caloi Cross” e “Bmx”, mas também motivo de tanto orgulho que eu a possuo até hoje, inclusive aguardando uma restauração, mas isto é assunto pra outra hora. Pois bem, a Monareta foi o primeiro passo, ou melhor, a primeira pedalada :-D para minha autonomia fora das “asas protetoras” dos meus pais, com ela desbravei os bairros próximos onde morávamos, e em seguida, 1992, fomos morar no local onde permanecemos por mais de 20 anos. Já dominava a arte de pular cordões de calçadas, ensaiava algumas empinadas e um belo dia resolvi descer um barranco de uma praça próxima de casa, tão íngreme que o pessoal sentava num papelão e descia deslizando na grama (famoso ski-bunda), e eu soltava o peso no freio contra pedal e mesmo assim a bicicleta “descia à milhão”, repeti algumas vezes até que numa dessas tinha um tijolo pela frente, lembro de levantar voo e aterrissar de lado, ficando com a roupa toda verde de deslizar pela grama... Nada demais, “só o susto”! Foi com esta mesma Monareta que aprendi a consertar bikes, meu pai me ensinou algumas coisas e outras fui aprendendo de curioso, só não tomei vergonha na cara e até hoje nunca me prestei a aprender a centrar uma roda...

Mas adiante ganhei uma Caloi Cross Freestyle II, verde claro, quase nova (já tinha o compromisso do trabalho no comércio dos meus pais, o coroa não me dava um salário propriamente dito, mas sempre dizia: “O que tu precisar tu me pede.”), com ela aprendi a voar, literalmente, usando um desnível entre as calçadas dos vizinhos próximos como impulsão, lembro da cara de pavor de alguns vizinhos e do espanto de um outro garoto que tinha quase a mesma idade e logo aprendeu a repetir os saltos. Boas lembranças, mas também a pior lembrança da infância: na noite do meu aniversário de 13 anos, estava numa esquina a poucos metros de casa, vi um cara numa bicicleta, uma “Light” branca com peças vermelhas, e outro a pé chegarem perto perguntando sobre o pneu dianteiro da minha bike (era novinho, com os chamados cabelinhos), desconversei sentindo a maldade e atravessei a rua, porém era uma avenida de grande movimento e não pude atravessar de volta na frente de casa, fui até a faixa de pedestres mais adiante para atravessar  e quando chegava perto do local dos meus gloriosos saltos ví os dois caras voltando na contramão, um deles de pé na garupa, saltou direto em mim, fomos ao chão e dei um jeito de segurar a bike, era o cara puxando de um lado e eu de outro, mas entre socos e pontapés fui vencido e o f.d.p. levou a bicicleta que fazia minha alegria... Corri gritando até a frente de casa (meus pais tinham uma lancheria que ficava aberta até certa hora da noite pra atender os tiozinhos bebedores de trago) e para o meu azar quiseram todos entrar no carro com o meu pai pra irem atrás dos meliantes... claro que perderam tempo e nem sinal dos caras...

Passado isso ganhei outra bike algum tempo depois, mas era uma coisa tosca, daquelas que algum infeliz pintou a pincel, aros, raios e cubos pintados sem desmontar, no pior tom de marrom “puxa-puxa” que alguém possa imaginar (mas fez a alegria da minha irmã mais velha, que usou ela algum tempo e depois vendeu por alguns trocados)... Felizmente tinha um vizinho que comprava peças e montava as chamadas “montain bike”, meu pai comprou uma delas e aí sim passei a pedalar cada vez mais longe de casa, até o ponto de passar as tardes de domingo inteiras fora, pedalando até a zona sul da cidade, passando por todos os parques, sempre reunindo os amigos da escola, ou os amigos que moravam na mesma quadra, isso entre meus 13 aos 16 anos. Depois do final do colégio e com os amigos mais velhos seguindo outras rotinas passei a pedalar sozinho, todas noites depois do trabalho, cheguei a pedalar 50 km por noite no meu auge, porém não tinha noção de seguir dietas e queimava muita massa muscular, pesava 62 kilos com a altura de 1,70 m. A bike era o meu meio de transporte também, tive outras “montain bikes” enquanto ainda trabalhava com meus pais, uma estragava e eu ganhava outra um pouquinho melhor, chegando numa época que não tinha mais bicicletas funcionando, ganhei uma do meu primeiro patrão, sabem aqueles casos em que o sujeito tem uma bike atirada num canto e não usa? Foi esse o caso. Primeiro ele me emprestou e depois disse que eu podia ficar com ela. Mais adiante meu segundo patrão tinha uma Caloi 10 na mesma situação, ofereci para comprá-la e a esposa dele disse que deixasse por lá pois eles tinham os filhos que podiam querer usar (realmente um deles usou, e muito! E quando decidiram me doar a bicicleta já tive que ir direto pra uma oficina pois precisava de pneus e outros reparos). Neste meio tempo, como eu tinha espaço pra guardar as bicicletas dos vizinhos, sempre que alguma das minhas estragava e eu não tinha paciência ou grana pra consertar, acabava usando alguma outra emprestada, e também entre um namoro e outro passei alguns períodos sem pedalar. Me lembro ainda de uma fase rebelde da adolescência, havia arranhado a pintura de um carro do meu pai, queria tirar a habilitação de motorista mas entre os desentendimentos fui advertido que não iria pegar o carro mesmo depois de habilitado, na época um Escort prata, 1994, com cerca de 04 anos de uso (um dos carros mais novos que meu coroa já teve), pois foi entre uma discussão e outra que peguei o dinheiro que era para a Auto Escola e comprei uma bicicleta nova, a única que comprei zero até hoje, lembro que meu amigo Prokopiuk comprou uma igual, fomos de ônibus buscar uma e depois outra, pois pegávamos no depósito da loja, ainda desmontadas, para depois agendar com o montador autorizado (senão perdia a garantia). Em resumo, cheguei num ponto que eu tinha cerca de 08 bicicletas em casa, eu trabalhava numa franquia dos Correios e fiquei sabendo da campanha do “Papai Noel dos Correios”, fui ver as cartas das crianças, li uma, pedia uma bicicleta para dividir com o irmão, li outra, pedia uma bicicleta pra ir pra escola, li outra e mais outra e todas que pediam bicicletas fui separando, então pedi autorização pro meu amigo Lourenço, que era proprietário de uma das bikes velhas que tinha em casa e pro meu pai pois uma das bikes era da minha irmã mais nova (que até hoje não aprendeu a pedalar, infelizmente... Confesso que sinto um pouco de culpa, se ela tivesse a oportunidade de conhecer a vida sobre uma bike provavelmente não teria decidido virar freira...) mas enfim, catei 05 bicicletas, levei pra revisão e larguei num dos Centros de Distribuição dos Correios que serviu para intermediar o transporte e posterior entrega às crianças. Me senti feliz em poder proporcionar isto para aquelas crianças, mesmo desconhecidas, mas mais tarde me dei conta de que tinha amigos próximos que também teriam ficado felizes se ganhassem uma bicicleta mesmo velha, inclusive um deles usou umas delas para se locomover durante um bom tempo pois estava numa situação financeira econômica delicada, depois melhorou um pouco e me devolveu a bike, que ficou parada em casa... Com isto aprendi a olhar mais para quem está próximo da gente, pois não adianta estender a mão a um desconhecido e negligenciar que está ao teu lado. Dizem que se conselho fosse bom não seria de graça, mas eu lhes aconselho, reflitam sobre isso.

Entre estas idas e vindas, uma namorada e outra, parei de pedalar e engordei 10 kilos, voltei a pedalar, consegui manter uma rotina de treinos e participei de 04 desafios individuais, no formato conhecido como AUDAX, foram 03 desafios de 200 km e outro de 300 km, que ficam pra ser relatados num outro momento, só digo que tive mais duas bicicletas e ainda as mantenho, junto da Monareta e uma outra que resolvi montar após catar tudo que tinha sobrando em casa...


Enfim, usei bicicleta até os meus 28 anos, pensei em montar uma bike bacana pra competir em corridas de aventura e coisas do tipo, porém na metade da lista de peças a conta estava em R$ 2.500,00, foi quando finalmente decidi comprar uma moto. Detalhe, tinha cerca de R$ 300,00 disponíveis e meus pais nem podiam ouvir falar em moto, era voto vencido, “moto é muito perigoso” eles diziam, mal sabiam eles do perigo que era pedalar pelo trânsito de Porto Alegre... Mas este relato fica para a próxima postagem, com o compromisso de que o foco será “a vida após a moto”. 
Abraço!

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